Às sete da manhã, o trem parte de Los Mochis.
Se permanecermos nele até o final, chegaremos a Creel no fim da tarde.
São pouco mais de 350 quilômetros e aproximadamente dez horas de viagem entre Sinaloa e Chihuahua, no noroeste do México.
Parece simples.
Uma origem.
Um destino.
Uma linha ferroviária atravessando o espaço entre os dois.
Mas o Chepe Express oferece uma possibilidade curiosa.
Podemos descer no caminho.
Não por alguns minutos.
Podemos ficar.
Passar duas noites.
Conhecer o lugar.
Depois voltar à estação e continuar a viagem em outro trem.
E talvez seja justamente aí que esta rota pelas montanhas mexicanas comece a propor uma pergunta diferente.
Quanto de um caminho precisamos permanecer em movimento para realmente percorrê-lo?
Los Mochis ainda não revela aquilo que vem pela frente
A viagem começa em Sinaloa.
Los Mochis está relativamente perto da costa do Golfo da Califórnia e ocupa uma região muito diferente daquela que encontraremos algumas horas depois.
Na estação, porém, tudo ainda cabe dentro da lógica conhecida de uma viagem de trem.
Bagagem.
Bilhete.
Plataforma.
Poltrona.
Janela.
Partida.
O Chepe Express segue atualmente entre Los Mochis e Creel, com paradas em El Fuerte, Bahuichivo e Divisadero.
Podemos fazer todo o percurso no mesmo dia.
Muitos passageiros fazem.
Mas saber que existe outra possibilidade muda discretamente a maneira como olhamos para as estações que aparecem no caminho.
Elas deixam de ser apenas lugares onde o trem para.
Podem ser lugares onde nós paramos.
Primeiro, precisamos começar a subir
Nas primeiras horas, a paisagem ainda não entrega completamente a dimensão da viagem.
O trem deixa Los Mochis e segue em direção a El Fuerte.
O terreno começa a mudar.
A presença das montanhas aumenta.
E aquilo que parecia uma travessia horizontal pelo mapa começa a adquirir outra dimensão.
Altitude.
Creel, no final da rota, está a cerca de 2.240 metros acima do nível do mar.
Para chegar até lá, a ferrovia precisa atravessar a Sierra Tarahumara, parte da Sierra Madre Occidental.
É nesse movimento que o Chepe deixa de parecer apenas um trem ligando duas cidades.
A linha precisa encontrar passagem por um território que não foi desenhado para facilitar caminhos.
El Fuerte é a primeira oportunidade de não continuar
Pouco mais de duas horas depois da partida, chegamos a El Fuerte.
Poderíamos permanecer na poltrona.
O trem seguirá.
Mas El Fuerte é uma das estações em que o passageiro pode programar uma interrupção da viagem.
A cidade tem outra escala.
Ruas históricas.
Uma praça central.
Construções que lembram sua importância regional ao longo dos séculos.
O rio Fuerte passa pela região.
E, de repente, a decisão de descer deixa de parecer um atraso.
Se ficarmos, o trem partirá sem nós.
Essa talvez seja uma sensação estranha para quem está acostumado a pensar em deslocamento como sequência.
Normalmente, perder o trem é um problema.
Aqui, deixá-lo partir pode fazer parte do plano.
Passamos um ou mais dias.
Dormimos.
Caminhamos.
E, na próxima data prevista no bilhete, voltamos à estação.
A viagem que parecia interrompida continua.
Quando embarcamos outra vez, alguma coisa mudou
Não apenas porque vimos El Fuerte.
Mudou nossa relação com o trem.
Ele já não é uma espécie de espaço fechado que nos transportará do ponto A ao ponto B.
Passou a funcionar como uma linha à qual podemos retornar.
Isso altera também a maneira de olhar pela janela.
Talvez uma estação que antes pareceria pequena comece a despertar curiosidade.
Talvez uma estrada que desaparece entre as montanhas pareça levar a algum lugar que gostaríamos de conhecer.
Talvez o caminho deixe de ser uma sequência de paisagens e comece a parecer uma coleção de possibilidades.
Então a ferrovia entra cada vez mais profundamente na serra.
E é aí que o Chepe começa a mostrar por que construí-la foi tão difícil.
A montanha não abriu espaço facilmente para o trem
A história da ferrovia Chihuahua–Pacífico é muito maior do que o atual serviço turístico.
Projetos para conectar o interior e o norte do México ao Pacífico surgiram ainda no século XIX.
Empresas mudaram.
Concessões passaram de mãos.
Trechos foram construídos separadamente.
Mas faltava justamente uma das partes mais difíceis: atravessar a Sierra Tarahumara.
O trecho final, entre Creel e a região ferroviária de Sinaloa, só seria concluído pelo governo mexicano em 1961.
A escala da obra ajuda a explicar a demora.
Ao longo da linha ferroviária histórica existem 86 túneis e 175 pontes.
Não precisamos decorar esses números enquanto viajamos.
Basta esperar.
Uma ponte aparece.
Depois um túnel.
A luz desaparece por alguns segundos.
Volta.
A montanha muda de lado.
Outro vale surge.
A engenharia não eliminou a dificuldade do terreno.
Encontrou uma maneira de passar por ele.
Em alguns momentos, a própria ferrovia precisa fazer curvas para conseguir avançar
Há um trecho conhecido como El Lazo.
Ali, a linha realiza um movimento que parece quase uma demonstração física do problema enfrentado pelos engenheiros.
Para vencer a inclinação, o traçado dobra sobre si mesmo.
O trem cruza uma ponte e depois passa por baixo da própria linha através de um túnel.
Não estamos seguindo a menor distância entre dois pontos.
Estamos seguindo a distância que a montanha permite.
Esse talvez seja um dos prazeres de viajar por uma ferrovia construída em terreno difícil.
O caminho deixa de parecer inevitável.
Começamos a enxergar as decisões necessárias para que ele exista.
Bahuichivo mostra que uma estação pode ser apenas o começo de outro caminho
Horas depois de El Fuerte, aparece Bahuichivo.
Se ficarmos no trem, ela será mais uma etapa antes das Barrancas del Cobre.
Se descermos, a escala muda novamente.
A estação funciona como acesso a lugares como Cerocahui, uma pequena localidade situada a cerca de 18 quilômetros dali.
É interessante perceber o que está acontecendo.
A ferrovia não precisa chegar à porta de tudo.
Ela cria pontos a partir dos quais outros caminhos começam.
Estradas.
Trilhas.
Pequenos deslocamentos.
Comunidades.
Mirantes.
Aquilo que parecia uma única rota vai se ramificando.
E talvez seja esse o momento em que a pergunta “qual é o destino?” começa a perder um pouco da importância.
Porque existem vários destinos possíveis dentro do mesmo percurso.
Então chegam as Barrancas del Cobre
Algumas paisagens são famosas antes mesmo de serem vistas.
As Barrancas del Cobre são assim.
O nome costuma aparecer em praticamente qualquer apresentação do Chepe.
E há uma razão.
Estamos diante de um enorme sistema de cânions esculpidos na Sierra Tarahumara.
Mas existe uma diferença entre saber que eles estarão no caminho e perceber o momento em que a escala da paisagem muda pela janela.
Montanhas deixam de ser apenas aquilo que circunda a ferrovia.
O terreno se abre.
Profundidades aparecem.
Encostas descem para lugares que não conseguimos enxergar completamente.
A linha ferroviária parece pequena.
O trem também.
E então chegamos a uma estação cujo próprio nome parece pedir uma interrupção.
Divisadero.
Em Divisadero, continuar imediatamente parece quase estranho
O trem chega à região das Barrancas del Cobre.
Podemos olhar.
Fotografar.
E seguir.
Mas Divisadero existe justamente em um daqueles lugares que fazem surgir outra vontade:
descer.
Há mirantes sobre os cânions.
Trilhas.
Hospedagens.
Tempo para observar a paisagem sem que ela esteja se movendo do outro lado da janela.
Essa diferença é importante.
Durante horas, vimos o território passar.
Agora podemos ficar parados diante dele.
O caminho continua existindo.
O trem continuará sua rota.
Mas durante algum tempo não precisamos acompanhá-lo.
É talvez a inversão mais interessante de toda a viagem.
O trem nos trouxe até uma paisagem extraordinária.
Para experimentá-la melhor, precisamos deixá-lo ir.
E existe gente vivendo nesse território muito antes de qualquer ferrovia
A Sierra Tarahumara não é um cenário vazio atravessado por um trem turístico.
Ela é também território do povo Rarámuri.
Comunidades, modos de vida, artesanato, agricultura, deslocamentos e relações com a serra existem aqui muito além da experiência de quem chega por alguns dias.
Isso muda a maneira como devemos olhar para a viagem.
As Barrancas del Cobre podem aparecer para nós como descoberta.
Para outras pessoas, são território vivido.
O próprio nome “Tarahumara”, tão associado à serra no turismo mexicano, é uma denominação historicamente aplicada aos Rarámuri.
Viajar pelo Chepe permite contato com esse território.
Não nos transforma em parte dele.
Essa diferença merece permanecer clara.
Voltar ao trem depois de ficar parado produz uma sensação inesperada
A plataforma reaparece.
O horário volta a importar.
O trem chega.
Subimos.
Encontramos nossa poltrona.
A bagagem volta a ser organizada.
E então acontece algo muito simples:
continuamos.
Talvez tenham passado dois dias desde a última vez em que estivemos dentro daquele percurso ferroviário.
Para o mapa, ainda estamos viajando entre Los Mochis e Creel.
Para nós, porém, a distância ganhou conteúdo.
É uma diferença difícil de perceber quando fazemos uma travessia inteira sem sair do veículo.
O mapa mede quilômetros.
A experiência começa a medir permanências.
Creel chega depois que já aprendemos a não ter pressa de chegar
No serviço direto, o Chepe parte de Los Mochis pela manhã e alcança Creel no fim da tarde.
Mas quem programa paradas pode levar vários dias para completar os mesmos pouco mais de 350 quilômetros.
A distância não mudou.
Nós mudamos a maneira de percorrê-la.
Creel aparece no coração da Sierra Tarahumara, a aproximadamente 2.240 metros de altitude.
É uma pequena cidade cercada por possibilidades de continuar explorando a região: vales de formações rochosas, o Lago Arareko, cachoeiras, comunidades e outros caminhos pelas montanhas.
É também o terminal atual do Chepe Express.
Os trilhos turísticos terminam ali.
A viagem, não necessariamente.
Talvez esse seja um bom lugar para perceber que chegar ao fim de uma linha não significa chegar ao fim de um território.
É possível fazer tudo em aproximadamente dez horas
E isso precisa ser dito.
Não há obrigação de transformar o Chepe em uma viagem de vários dias.
Podemos embarcar em Los Mochis pela manhã, atravessar a serra, observar pontes, túneis, cânions e estações e chegar a Creel no fim da tarde.
Essa já é uma experiência extraordinária.
Mas existe outra maneira.
Atualmente, quem compra o percurso completo pode programar antecipadamente até três paradas e retomar a viagem em outra data, conforme os dias de circulação do trem.
As interrupções precisam constar no bilhete.
E, nas estações escolhidas, é necessário considerar a permanência mínima indicada pela operação e montar o roteiro antes da compra.
Ou seja:
não se trata de olhar pela janela, gostar de um lugar e impulsivamente saltar do trem com a mala. 😂
A liberdade existe.
Mas precisa ser planejada.
Talvez exista mais de uma maneira de percorrer a mesma linha
Uma ferrovia parece determinar o caminho.
Os trilhos estão fixos.
O trem não pode decidir virar à esquerda.
As estações já existem.
Los Mochis continuará de um lado.
Creel continuará do outro.
Ainda assim, dois passageiros podem fazer viagens completamente diferentes entre os mesmos pontos.
Um permanece no trem durante todo o percurso.
Outro desce em El Fuerte.
Volta dois dias depois.
Segue até Bahuichivo.
Desce novamente.
Conhece Cerocahui.
Retorna.
Chega a Divisadero.
Fica diante dos cânions.
Só então segue para Creel.
Os dois percorreram a mesma ferrovia.
Mas dificilmente diriam que fizeram a mesma viagem.
Quando descer também faz parte do caminho
Talvez estejamos acostumados demais a medir uma viagem pelo movimento.
Quantos quilômetros percorremos.
Quantas horas dirigimos.
Quanto falta para chegar.
Qual será a próxima estação.
O Chepe oferece outra medida.
Às vezes, conhecer um caminho exige justamente interrompê-lo.
Sair.
Ficar.
Olhar para aquilo que não caberia nos poucos minutos de uma parada ferroviária.
Dormir em uma cidade que inicialmente era apenas um nome no itinerário.
Caminhar por um lugar que, visto da janela, teria desaparecido em segundos.
Depois voltar.
Esperar novamente na plataforma.
Ouvir o trem chegando.
E continuar.
No fim, talvez a viagem entre Los Mochis e Creel não seja interessante apesar dessas interrupções.
Pode ser interessante por causa delas.
Porque existe uma diferença entre passar por um lugar e permitir que ele faça parte do percurso.
O trem nos ensina a continuar.
O Chepe acrescenta uma possibilidade:
às vezes, para conhecer melhor o caminho, vale a pena descer dele.




