Quando a Estrada é o Mar: Como É Viajar de Ferry Pelo Inside Passage do Alasca

Ferry navegando entre ilhas e montanhas no Inside Passage rumo ao Alasca

Em algum momento depois da partida, fica difícil saber onde termina uma ilha e começa outra.

Há água por todos os lados.

Florestas descem pelas encostas até quase tocar o mar. Montanhas aparecem atrás delas. Às vezes uma pequena faixa de terra parece fechar completamente a passagem, até que o ferry muda de direção e revela outro canal.

Não existe uma estrada diante de nós.

Ainda assim, estamos viajando por uma.

O Alaska Marine Highway atravessa milhares de quilômetros da costa do Alasca conectando comunidades que, vistas em um mapa rodoviário convencional, parecem separadas por água, montanhas e distâncias enormes.

Uma de suas portas de entrada fica bem mais ao sul, em Bellingham, no estado de Washington.

De lá, é possível embarcar em um ferry e passar aproximadamente 38 horas viajando até Ketchikan, já no Alasca.

É tempo suficiente para esquecer por alguns momentos a ideia de que estamos simplesmente indo de um lugar para outro.

Porque, nessa parte do mundo, o próprio caminho parece exigir outra definição de estrada.

Bellingham ainda se parece com uma partida conhecida

Há carros esperando para embarcar.

Passageiros carregando malas.

Funcionários orientando veículos.

Portas que se abrem para receber automóveis, motocicletas e outros equipamentos que também atravessarão a costa.

Tudo ainda pertence a uma lógica familiar de viagem.

A diferença está no tamanho da água diante do terminal.

Bellingham é o extremo sul do Alaska Marine Highway e fica a cerca de 595 milhas náuticas de Ketchikan.

Quando o ferry deixa o porto, não estamos apenas começando uma travessia.

Estamos entrando em um sistema de transporte que continuará muito além do nosso destino.

As rotas do Alaska Marine Highway percorrem aproximadamente 3.500 milhas da costa e atendem mais de 30 comunidades, chegando, em outras regiões do sistema, até as Aleutas.

Ketchikan será apenas a primeira grande chegada no Alasca.

Por enquanto, porém, existe apenas água atrás do navio.

O ferry começa a parecer menos turístico quando olhamos para quem está dentro dele

Talvez seja fácil imaginar essa viagem como uma espécie de cruzeiro.

A paisagem ajuda na confusão.

Montanhas, ilhas, florestas, canais estreitos e a possibilidade de avistar animais fazem o percurso parecer construído para quem está de férias.

Mas o ferry não está ali apenas para mostrar o Alasca.

Ele está transportando pessoas.

E carros.

E aquilo que precisa chegar às comunidades ao longo da costa.

Moradores e visitantes dividem os mesmos navios.

Essa pequena diferença muda nossa relação com a paisagem.

Não estamos atravessando um cenário criado para a viagem.

Estamos usando uma infraestrutura que existe porque há pessoas vivendo onde a estrada convencional não consegue chegar da maneira que estamos acostumados.

Aos poucos, o Pacífico desaparece atrás das ilhas

O nome ajuda a entender a geografia.

Inside Passage.

Em vez de seguir exposto ao oceano aberto durante todo o percurso, o caminho passa por uma extensa rede de canais protegidos por ilhas ao longo da costa do Canadá e do sudeste do Alasca.

São mais de 1.500 ilhas ajudando a proteger partes dessa rota das grandes ondulações do Pacífico.

Da janela ou do convés, isso produz uma sensação curiosa.

Às vezes parece que estamos navegando por um rio enorme.

Em outros momentos, por um lago cercado de montanhas.

Então o canal se abre novamente e a quantidade de água diante do ferry devolve a dimensão marítima da viagem.

O mapa diz que estamos seguindo para o norte.

A paisagem parece dizer apenas que existe outra passagem depois daquela curva.

Não há uma janela que consiga guardar tudo

Nos trens, aprendemos rapidamente a procurar um bom lugar junto à janela.

Aqui isso parece insuficiente.

Existe paisagem na frente.

Atrás.

Dos dois lados.

E acima, quando as montanhas se aproximam.

Por isso o convés muda a experiência.

Sair para fora significa acrescentar vento, temperatura e som àquilo que até então era apenas imagem.

O frio pode nos mandar de volta para dentro pouco depois.

Mas alguma coisa já mudou.

O território deixa de parecer uma sequência de fotografias.

Passamos a perceber a distância entre as margens, a velocidade do ferry e a escala das montanhas que pareciam menores através do vidro.

Durante horas, quase nada precisa acontecer

Essa talvez seja uma das partes mais difíceis de imaginar antes da viagem.

Trinta e oito horas são muitas horas.

Não existe uma atração diferente programada para cada uma delas.

O ferry continua navegando.

A água continua ao lado.

Uma ilha aparece.

Depois outra.

Algumas horas podem passar sem que saibamos exatamente o nome do lugar que estamos vendo.

E não há problema nisso.

Viagens longas criam um tipo de tempo que quase desapareceu dos deslocamentos rápidos.

Podemos comer.

Ler.

Dormir.

Conversar.

Voltar ao convés.

Descobrir que a luz mudou.

E olhar outra vez para a mesma água que, evidentemente, já não é a mesma.

Então começa a anoitecer no caminho

Dormir enquanto continuamos viajando é uma experiência estranha.

O corpo interrompe o dia.

O transporte não.

Há cabines disponíveis em alguns navios e acomodações que variam conforme a embarcação. Mas talvez uma das imagens mais associadas ao Alaska Marine Highway esteja justamente entre os passageiros que escolhem uma experiência mais simples durante as longas travessias.

Em determinados navios existem áreas comuns e espaços de solário onde viajantes permanecem durante parte do percurso.

Isso está muito distante da lógica de um grande navio de cruzeiro.

E talvez seja justamente aí que a natureza dessa viagem fique mais clara.

Não embarcamos em um hotel que se desloca.

Embarcamos em um ferry que precisa chegar.

Enquanto dormimos, quilômetros continuam acontecendo

Quando amanhece, a primeira surpresa pode ser bastante simples:

a paisagem ainda está lá.

Mas já estamos muito longe de onde a vimos pela última vez.

A luz revela novamente florestas, montanhas e água.

Talvez alguma ilha tenha desaparecido atrás do ferry durante a noite.

Talvez várias.

Existe algo profundamente terrestre nessa experiência, apesar de estarmos navegando.

A distância não foi apagada.

Ela foi percorrida.

Durante toda a noite.

O mapa começa a fazer mais sentido quando aparecem comunidades

De longe, uma pequena cidade costeira pode parecer quase improvável.

Casas ocupam uma faixa estreita entre água e montanha.

Um porto se projeta sobre o canal.

Barcos aparecem junto à margem.

E então entendemos melhor por que existe uma rodovia marítima.

O sudeste do Alasca é formado por ilhas, fiordes, canais e um relevo que não oferece a continuidade terrestre que esperamos encontrar entre cidades.

O ferry transforma a água entre elas em infraestrutura.

Não elimina a geografia.

Trabalha com ela.

Talvez seja essa a diferença mais interessante entre construir uma estrada e estabelecer uma rota marítima.

Uma corta o território.

A outra precisa descobrir por onde ele permite passar.

O ferry não precisa parar em todos os lugares para que eles façam parte da viagem

A rede do Inside Passage conecta localidades como Ketchikan, Wrangell, Petersburg, Sitka, Juneau, Haines e Skagway.

Nem todo navio faz todas essas paradas em todas as viagens.

Horários, embarcações e combinações de rota variam.

Mas saber que esses portos pertencem ao mesmo sistema muda a maneira de olhar para o mapa.

Aquilo que parecia uma coleção de comunidades isoladas começa a formar uma linha.

Só que essa linha não está desenhada sobre terra.

Está sobre água.

Ketchikan aparece depois de quase dois dias de caminho

Há uma hora prevista para chegar.

Naturalmente.

Mas a paisagem não parece preocupada com isso.

Depois de tantas horas observando ilhas e canais, uma quantidade maior de construções começa a devolver referências urbanas à viagem.

Ketchikan é conhecida como a primeira grande comunidade do Alasca encontrada pelas rotas principais que vêm do sul.

O ferry se aproxima do terminal.

Veículos voltarão a tocar o asfalto.

Passageiros seguirão para hotéis, casas, outros transportes ou outras etapas da viagem.

Alguns continuarão pelo próprio Alaska Marine Highway.

Nós podemos desembarcar.

E talvez seja somente ao colocar os pés em terra que percebamos uma coisa curiosa.

Não atravessamos uma ponte entre Washington e o Alasca.

Não seguimos uma rodovia costeira.

Não voamos por cima das distâncias que os separam.

Passamos por elas.

Talvez “estrada” seja uma palavra maior do que imaginamos

Estamos acostumados a reconhecê-la pela superfície.

Asfalto.

Faixas pintadas.

Placas.

Acostamento.

Mas talvez uma estrada seja, antes de tudo, uma maneira de conectar lugares.

No sudeste do Alasca, fazer isso exige aceitar a forma do território.

As montanhas permanecem onde estão.

As ilhas continuam separadas.

Os canais não precisam desaparecer.

A infraestrutura simplesmente encontra outro caminho.

Por isso, depois de 38 horas viajando entre Bellingham e Ketchikan, a expressão Alaska Marine Highway já não parece apenas um nome curioso.

Parece uma descrição bastante precisa.

Existem territórios em que aquilo que chamaríamos de estrada simplesmente precisa flutuar.

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