Todo caminho começa com alguém decidindo passar.
Às vezes existe uma estrada.
Às vezes apenas uma trilha.
Em outros momentos, existe somente a lembrança de que outras pessoas passaram por ali antes.
No interior de Goiás, um percurso contemporâneo de aproximadamente 300 quilômetros liga Corumbá de Goiás à Cidade de Goiás atravessando Cerrado, serras, cidades históricas, povoados, fazendas e antigos caminhos.
Pode ser feito a pé.
Pode ser percorrido de bicicleta.
E leva o nome de uma mulher que passou boa parte da vida transformando lugares aparentemente comuns em matéria para a literatura.
Caminho de Cora Coralina.
Mas talvez a característica mais interessante desse percurso não esteja apenas na homenagem à escritora.
Para criar um novo caminho, seus idealizadores começaram procurando os antigos.
Antes do mapa, vieram os relatos
O Caminho de Cora Coralina foi idealizado em 2013.
O objetivo era interligar municípios, povoados, fazendas, áreas naturais e atrativos de Goiás através de uma rota que pudesse ser percorrida por caminhantes e ciclistas.
Mas havia uma pergunta fundamental:
por onde esse caminho deveria passar?
Parte da resposta estava escrita.
Para definir o traçado, os responsáveis pelo projeto pesquisaram relatos de pessoas que haviam atravessado aquela região em diferentes momentos da história.
Entre os documentos utilizados estava a jornada de Luís da Cunha Menezes, que percorreu Goiás em 1778 para assumir o governo da então capitania.
Também foram consultados os relatos dos naturalistas europeus Auguste de Saint-Hilaire e Johann Emanuel Pohl, que viajaram pela região entre 1818 e 1821.
Vieram depois as descrições de Oscar Leal, na década de 1880.
E os registros da Comissão Exploradora do Planalto Central, conhecida como Comissão Cruls, que percorreu parte do interior brasileiro entre 1892 e 1893.
Séculos diferentes.
Viajantes diferentes.
Motivos diferentes para atravessar.
Mas seus registros ajudaram a revelar uma coisa em comum:
por onde as pessoas haviam passado.
O novo caminho começou, portanto, procurando os rastros dos anteriores.
Trezentos quilômetros não formam uma linha
No mapa, o Caminho de Cora Coralina pode parecer simples.
Um ponto de partida.
Uma linha.
Um ponto de chegada.
Na prática, são aproximadamente 300 quilômetros divididos em 13 trechos, atravessando oito municípios goianos. O percurso começa em Corumbá de Goiás e termina na Cidade de Goiás, podendo ser realizado caminhando ou de bicicleta. A RedeTrilhas indica cerca de 18 dias para a travessia integral a pé.
Entre uma extremidade e outra aparecem lugares muito diferentes.
Corumbá de Goiás.
A região dos Pireneus.
Pirenópolis.
Áreas rurais.
São Francisco de Goiás.
A Serra de Jaraguá.
Itaguari.
Itaberaí.
A Serra Dourada.
Cidade de Goiás.
Além das cidades, o percurso atravessa povoados, propriedades rurais, estradas de terra, trilhas e unidades de conservação.
Por isso, os 300 quilômetros não funcionam apenas como distância.
Funcionam como uma sucessão de encontros.
O caminho muda conforme avançamos.
E nós mudamos a maneira de olhar para ele.
Quando o Cerrado também faz parte do percurso
Existe uma tentação de pensar em uma trilha apenas como a faixa sobre a qual colocamos os pés.
No Caminho de Cora Coralina, isso seria enxergar pouco.
Grande parte da experiência acontece no Cerrado.
O percurso conecta áreas protegidas como o Parque Estadual dos Pireneus, o Parque Estadual da Serra de Jaraguá e a Área de Proteção Ambiental da Serra Dourada.
Em alguns trechos, a paisagem se abre.
Em outros, o relevo exige subida.
Há rios.
Cachoeiras.
Vegetação típica.
Estradas rurais.
Serras que obrigam o caminho a encontrar passagem.
Na Serra de Jaraguá, por exemplo, um dos trechos percorre aproximadamente cinco quilômetros pela serra até a região das torres e do mirante, antes de iniciar a descida e continuar por estradas vicinais. O percurso passa pelo rio Pari e chega até a cruzar a Ferrovia Norte-Sul antes de seguir para Vila Aparecida.
É uma pequena sequência que resume muito do que existe nessa viagem.
Trilha.
Serra.
Estrada.
Rio.
Ferrovia.
Povoado.
Nenhum deles precisa ser o destino.
Todos fazem parte daquilo que encontramos enquanto avançamos.
As cidades interrompem o caminho — e também fazem parte dele
Depois de horas percorrendo áreas rurais, entrar novamente em uma cidade produz uma mudança de escala.
Aparecem ruas.
Casas.
Igrejas.
Praças.
Comércio.
Comida.
Pessoas.
Um lugar para dormir.
No Caminho de Cora Coralina, essas interrupções não são acidentes no percurso.
São parte dele.
A rota atravessa cidades cuja história está ligada à ocupação do interior goiano e aos antigos caminhos do ciclo do ouro.
Pirenópolis é uma delas.
Jaraguá é outra.
Corumbá de Goiás também guarda um conjunto histórico que permanece integrado à vida atual da cidade.
E então acontece algo curioso.
Aquilo que, no mapa, parecia simplesmente uma trilha de 300 quilômetros começa a se comportar como caminhos sempre se comportaram.
Pessoas passam.
Param.
Comem.
Dormem.
Conversam.
Compram alguma coisa.
Precisam de orientação.
Continuam.
Ao redor dessa passagem surgem pontos de apoio e serviços voltados para quem percorre a rota.
O caminho contemporâneo começa a produzir novamente uma relação entre quem passa e quem permanece.
Talvez seja impossível criar um caminho sem que alguma coisa comece a acontecer ao redor dele.
Há palavras esperando pelo caminhante
E então aparece Cora.
Não apenas no nome.
Ao longo do percurso, poemas e fragmentos da obra de Cora Coralina aparecem em placas instaladas pelo caminho. A documentação turística oficial destaca essa presença da poesia como uma das características que diferenciam a rota.
É uma intervenção pequena.
Uma placa.
Algumas palavras.
Depois, novamente o caminho.
Mas talvez funcione justamente por isso.
Não estamos dentro de um museu literário.
Estamos andando.
O corpo está cansado.
A paisagem muda.
Uma cidade ficou para trás.
Outra ainda está adiante.
E, em algum ponto entre elas, encontramos palavras escritas por alguém que observou com atenção justamente o cotidiano, as ruas, os becos, as casas e as pessoas de Goiás.
A literatura não substitui a paisagem.
Ajuda a olhar para ela.
E essa talvez seja uma maneira muito apropriada de homenagear uma escritora.
Não transformando seu nome apenas em monumento.
Colocando suas palavras onde pessoas continuam passando.
Cora está no final — mas esteve no caminho inteiro
O destino da travessia é a Cidade de Goiás.
É ali que está a casa onde Cora Coralina viveu durante grande parte de sua vida e onde hoje funciona o museu dedicado à escritora.
Mas chegar à cidade depois de percorrer o caminho produz uma relação diferente com esse destino.
Cora Coralina escreveu sobre o universo que a cercava.
Becos.
Casas.
Ruas.
Gente comum.
Trabalho.
Memória.
O cotidiano do interior.
Ao percorrer Goiás antes de chegar até ela, o caminhante não encontra literalmente o mundo de seus poemas preservado como cenário.
Encontra algo mais interessante.
O território ao qual sua escrita pertence.
A paisagem mudou.
As cidades mudaram.
As pessoas mudaram.
Mas existe uma diferença entre conhecer uma escritora apenas pelas palavras e chegar ao lugar de suas palavras depois de atravessar parte da geografia que as envolve.
Nesse sentido, a Cidade de Goiás não funciona apenas como ponto final.
Funciona como uma espécie de resposta.
O nome que acompanhou o caminhante por 300 quilômetros finalmente encontra um lugar.
Um caminho novo sobre caminhos antigos
Existe algo aparentemente contraditório no Caminho de Cora Coralina.
Ele é novo.
E é antigo.
A rota contemporânea foi concebida no século XXI.
Sua sinalização é recente.
Sua organização como trilha de longo curso é recente.
Os pontos de apoio que recebem caminhantes e ciclistas fazem parte de uma experiência turística contemporânea.
Mas parte do traçado procura justamente caminhos percorridos muito antes de a trilha existir.
Essa sobreposição talvez seja sua característica mais interessante.
Não houve tentativa de recuperar um único percurso histórico e congelá-lo exatamente como teria sido.
Relatos de épocas diferentes ajudaram a encontrar passagens que podiam novamente ser conectadas.
O resultado é um caminho contemporâneo feito de memórias de circulação.
Pessoas passaram por aquelas terras procurando ouro.
Outras viajaram para conhecer e descrever o interior.
Outras transportaram mercadorias.
Outras simplesmente precisavam chegar à próxima povoação.
Hoje, alguém pode passar por parte desses mesmos territórios porque decidiu caminhar.
O motivo mudou.
A passagem permaneceu possível.
Não é preciso percorrer os 300 quilômetros para encontrar o caminho
Uma trilha de aproximadamente 300 quilômetros pode produzir outra impressão equivocada:
ou fazemos tudo, ou não fazemos o caminho.
Não é assim.
A própria estrutura em 13 trechos permite percorrer partes da rota, escolhendo experiências menores. O site oficial mantém informações sobre distâncias, altimetria, tipo de piso e pontos de apoio de cada segmento.
Isso torna o Caminho de Cora Coralina menos uma prova de resistência e mais um território de possibilidades.
Há quem queira fazer a travessia completa.
Há quem escolha alguns dias.
Há quem percorra um trecho de bicicleta.
Há quem encontre o caminho durante uma visita a uma das cidades atravessadas por ele.
A experiência muda.
O caminho continua sendo o mesmo.
E talvez exista algo importante nisso.
Não precisamos conhecer um caminho inteiro para permitir que ele nos leve a algum lugar.
Como percorrer o Caminho de Cora Coralina hoje
Para quem pretende realizar a travessia, planejamento faz parte da experiência.
O percurso oficial começa em Corumbá de Goiás e termina na Cidade de Goiás, embora seja naturalmente possível organizar experiências parciais. A rota atravessa trechos de asfalto, estradas de terra e trilhas, com variações consideráveis de distância e altimetria entre as etapas.
A documentação da RedeTrilhas indica caminhada e bicicleta como modalidades oficiais e apresenta uma referência de 18 dias para a travessia completa.
A época também interfere bastante na experiência. Informações turísticas oficiais de Goiás costumam indicar os meses secos, especialmente entre maio e setembro, como período mais favorável para atividades ao ar livre na região.
Antes da viagem, porém, vale consultar as informações atualizadas do próprio caminho sobre os trechos, condições, hospedagem e pontos de apoio. Uma rota longa atravessa ambientes diferentes, e condições locais podem mudar.
Há uma diferença entre improvisar uma caminhada e entrar em um caminho.
No segundo caso, conhecer minimamente aquilo que existe adiante faz parte de continuar chegando.
Aquilo que encontramos enquanto passamos
Todo caminho começa com alguém decidindo passar.
Talvez seja por isso que seja tão difícil determinar exatamente quando ele termina.
Podemos marcar um ponto no mapa.
No Caminho de Cora Coralina, esse ponto é a Cidade de Goiás.
Depois de aproximadamente 300 quilômetros, chegamos.
Mas aquilo que percorremos entre Corumbá e Goiás não desaparece quando alcançamos o último marco.
Ficam as serras.
As estradas de terra.
As cidades.
Os povoados.
As pessoas que ofereceram pouso.
A comida encontrada no caminho.
Os rios atravessados.
As palavras lidas em uma placa quando ainda faltavam muitos quilômetros.
E ficam também todos aqueles que passaram antes.
Alguns deixaram estradas.
Outros deixaram cidades.
Outros deixaram relatos.
Cora deixou palavras.
Décadas ou séculos depois, alguém reuniu parte desses vestígios e decidiu que valia a pena passar por ali novamente.
Assim nasceu um caminho novo.
Não para substituir os anteriores.
Mas porque eles haviam deixado coisas suficientes para ainda haver o que encontrar.
Talvez seja isso que os caminhos façam.
Eles não apenas nos levam de um lugar para outro.
Vão acumulando aquilo que acontece enquanto alguém passa.
E, quando outras pessoas chegam depois, alguma coisa permanece esperando para ser descoberta.
No fim, talvez um caminho nunca termine exatamente no lugar indicado pelo mapa.
Porque todo lugar ao qual um caminho chega pode ser também o lugar de onde outro começa.




