Onde a Água Faz o Papel das Ruas: Navegando Por Xochimilco

Trajinera navegando pelos canais e chinampas de Xochimilco, na Cidade do México

É difícil chegar a Xochimilco sem reconhecer alguma coisa.

As trajineras coloridas aparecem em fotografias, vídeos e cartões-postais da Cidade do México. Seus nomes pintados em letras grandes, as flores que decoram as embarcações e o movimento pelos canais transformaram o lugar em uma das imagens mais conhecidas da capital mexicana.

Mas talvez essa seja justamente a razão pela qual seja tão fácil olhar para Xochimilco sem perceber o que existe diante de nós.

Porque, antes de ser cenário para um passeio, a água ali é caminho.

Quando uma trajinera deixa o embarcadouro e começa a avançar pelos canais, a cidade convencional vai ficando para trás. Não há uma avenida acompanhando o percurso. Em determinados trechos, as margens são formadas por terrenos cultivados. Pequenas embarcações aparecem na água. Os canais se cruzam, seguem entre áreas verdes e criam acessos que só fazem sentido porque aquele território foi organizado de uma maneira diferente.

Xochimilco não é apenas um lugar atravessado por canais.

É um lugar que aprendeu a existir entre eles.

Uma paisagem construída sobre a água

Para compreender o que estamos vendo durante a navegação, precisamos olhar para as margens.

Ali estão as chinampas.

À primeira vista, podem parecer simplesmente terrenos agrícolas separados por canais. Mas sua existência revela uma transformação muito mais profunda da antiga paisagem lacustre da Bacia do México.

Durante o período pré-hispânico, populações da região desenvolveram um sistema capaz de criar áreas cultiváveis nas zonas rasas dos lagos. Matéria orgânica, sedimentos e vegetação eram utilizados na formação de parcelas elevadas, enquanto canais permaneciam entre elas.

Não eram ilhas flutuando livremente, apesar da expressão “jardins flutuantes” pela qual ficaram conhecidas.

Eram terras construídas dentro de um ambiente aquático.

A água ao redor ajudava na irrigação, permitia circulação e participava do funcionamento de um sistema agrícola extraordinariamente produtivo.

A UNESCO considera a paisagem lacustre de Xochimilco o principal vestígio sobrevivente dessa forma tradicional de ocupação das lagoas da Bacia do México. O patrimônio reconhecido não está apenas em um edifício ou monumento: está na relação entre água, canais, terrenos agrícolas e atividade humana.

É essa relação que ainda podemos enxergar de dentro de uma embarcação.

Quando o canal também é caminho

Em uma rua convencional, quase nunca precisamos pensar sobre a existência da própria rua.

Ela está ali.

Caminhamos, dirigimos, atravessamos.

Em Xochimilco, a mudança do meio de circulação altera nossa percepção do espaço.

Uma trajinera é uma embarcação de fundo plano, movimentada tradicionalmente com uma longa vara apoiada no fundo dos canais. Ela avança devagar.

E essa lentidão ajuda.

Aos poucos, começamos a perceber que os canais não estão simplesmente decorando a paisagem.

Eles organizam a paisagem.

Separam chinampas.

Permitem chegar até elas.

Criam rotas entre diferentes partes da região.

Durante muito tempo, também permitiram transportar aquilo que era produzido ali para outras áreas da Bacia do México.

A própria história das trajineras está ligada a essa circulação. Antes de se tornarem uma das experiências turísticas mais conhecidas da cidade, embarcações desse tipo transportavam pessoas e mercadorias pelos canais. Hoje, os embarcadouros recebem visitantes para percorrer uma rede que a administração local estima em aproximadamente 184 quilômetros de caminhos de água.

A expressão é particularmente boa.

Caminhos de água.

Porque descreve exatamente aquilo que começamos a compreender durante o percurso.

Há mais de um Xochimilco dentro de Xochimilco

Nem toda navegação pelos canais produz a mesma experiência.

Nos embarcadouros mais conhecidos, como Nativitas, o ambiente pode ser movimentado. Trajineras navegam próximas umas das outras, vendedores circulam em pequenas embarcações, grupos celebram, músicos aparecem pelo caminho.

Essa também é uma parte real de Xochimilco.

Os passeios turísticos pelos canais começaram a se consolidar ainda na década de 1930 e, com o tempo, tornaram-se parte da identidade contemporânea do lugar.

Mas existe outra possibilidade.

Embarcadouros como Cuemanco permitem entrar em áreas mais tranquilas da zona protegida, onde a presença das chinampas e do ambiente lacustre se torna muito mais evidente. A própria administração de Xochimilco diferencia esses percursos por seu contato maior com a natureza e com a área de conservação.

É aí que a fotografia conhecida começa a mudar.

As cores continuam existindo.

As trajineras continuam existindo.

Mas o que chama nossa atenção passa a ser outra coisa.

A margem.

O cultivo.

A distância entre uma chinampa e outra.

Uma pequena embarcação entrando por outro canal.

A maneira como a água determina por onde podemos seguir.

E então aquilo que parecia apenas um passeio começa a revelar um território.

As chinampas ainda produzem

Talvez este seja o detalhe mais importante para não transformarmos Xochimilco em uma peça de museu.

As chinampas não pertencem somente ao passado.

Parte delas continua sendo utilizada para produção agrícola.

Hortaliças, plantas ornamentais e outros cultivos ainda crescem em terrenos cercados pelos canais, mantendo viva uma técnica cuja origem antecede em séculos a cidade moderna que hoje envolve Xochimilco.

Isso muda a experiência.

Não estamos navegando por uma reconstrução feita para mostrar aos visitantes como aquele sistema teria funcionado.

Estamos atravessando os vestígios de uma paisagem histórica que ainda desempenha parte de sua função.

Naturalmente, ela mudou.

A Cidade do México cresceu ao redor.

Áreas lacustres foram drenadas.

O tecido urbano avançou.

Novas atividades econômicas apareceram.

A UNESCO alerta que o sistema enfrenta pressões provocadas pela expansão urbana, contaminação, extração excessiva de água subterrânea, abandono de áreas agrícolas e mudanças nas técnicas de produção.

Portanto, aquilo que encontramos nos canais não é uma paisagem congelada.

É uma paisagem sobrevivente.

E talvez seja justamente essa fragilidade que torne importante aprender a enxergá-la.

O passeio muda quando sabemos o que estamos vendo

Podemos embarcar em uma trajinera simplesmente para passar algumas horas sobre a água.

Não há nada errado nisso.

Mas existe uma segunda viagem possível dentro da primeira.

Ela começa quando deixamos de olhar apenas para a embarcação e começamos a olhar para aquilo que torna a embarcação necessária.

Os canais.

As chinampas.

As margens.

Os acessos.

A produção agrícola.

A água conectando tudo.

Nesse momento, Xochimilco deixa de ser apenas uma atração colorida da Cidade do México.

Passa a ser uma maneira de perceber como uma sociedade pode adaptar o território às condições impostas pela própria geografia.

Não eliminando a água.

Construindo com ela.

Como experimentar Xochimilco por esse outro caminho

Para quem deseja perceber essa dimensão do lugar, a escolha do percurso importa.

Os embarcadouros tradicionais oferecem a experiência mais conhecida, festiva e movimentada das trajineras.

Já quem procura observar com mais atenção os canais, as chinampas e a paisagem protegida pode considerar embarcadouros ligados à zona ecológica, como Cuemanco. Informações oficiais da Cidade do México destacam justamente essa área para percursos em contato mais próximo com o sistema de chinampas.

Mais importante do que procurar uma experiência supostamente “autêntica”, porém, é entender que as duas realidades coexistem.

Xochimilco é patrimônio.

É área agrícola.

É ambiente natural.

É espaço de trabalho.

É lugar de lazer.

É atração turística.

E continua sendo parte de uma metrópole gigantesca.

Talvez sua complexidade esteja justamente nisso.

O antigo sistema não desapareceu completamente para dar lugar ao presente.

O presente cresceu ao redor dele.

Quando a água deixa de ser paisagem

Em muitos lugares, viajamos até a água.

Chegamos a um rio, um lago ou uma costa e paramos diante deles.

Em Xochimilco, acontece algo diferente.

Precisamos entrar na água para compreender o lugar.

Não porque ela seja o destino.

Mas porque ela organiza aquilo que existe ao redor.

Uma chinampa só pode ser compreendida em relação ao canal.

O canal só ganha sentido em relação às terras que separa e conecta.

A trajinera só faz sentido porque existe um território onde navegar foi, durante séculos, uma maneira de circular.

E, pouco a pouco, percebemos que estamos diante de algo muito maior do que uma coleção de embarcações coloridas.

Estamos navegando por uma forma de organizar o espaço.

A Cidade do México moderna cresceu ao redor dela, transformou-a, pressionou-a e reduziu sua extensão.

Mesmo assim, parte daquele antigo desenho permanece visível.

Para encontrá-lo, basta fazer uma pequena mudança no olhar.

Em vez de perguntar apenas o que existe às margens dos canais, podemos perguntar:

o que só existe ali porque existem os canais?

É nesse momento que Xochimilco revela seu verdadeiro caminho.

Ali, a água não atravessa a paisagem.

A água ajuda a construí-la.

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