Uma Cidade Que o Deserto Não Apagou: Caminhando Por Humberstone e Santa Laura

Antigas construções de Humberstone no deserto do Atacama, no Chile

No meio do Deserto do Atacama, existe uma praça esperando por pessoas que já não moram ali.

Ao redor dela permanecem casas, uma antiga escola, um teatro, espaços de comércio e edifícios que pertenciam à vida cotidiana de uma cidade.

Podemos caminhar pelas ruas.

Entrar em algumas construções.

Observar objetos.

Imaginar portas se abrindo, crianças indo para a escola, trabalhadores voltando para casa.

Mas basta olhar além dos edifícios para perceber que alguma coisa está fora do lugar.

Ao redor de tudo existe deserto.

Não uma faixa de areia entre a cidade e outro lugar.

Deserto até onde a paisagem permite enxergar.

Estamos em Humberstone, no norte do Chile.

E talvez a primeira pergunta não seja por que aquele lugar foi abandonado.

Talvez seja outra:

por que alguém construiu uma cidade ali?

A resposta está aproximadamente um quilômetro adiante.

Em Santa Laura, enormes estruturas industriais ainda permanecem de pé.

Humberstone e Santa Laura começam, então, a revelar duas partes de uma mesma história.

Humberstone mostra onde as pessoas viveram.

Santa Laura mostra por que elas estavam ali.

Primeiro veio aquilo que existia sob o deserto

A Pampa do norte chileno guarda enormes depósitos naturais de nitrato.

Durante o século XIX, essa matéria-prima tornou-se extremamente valiosa, especialmente pela utilização na produção de fertilizantes.

Explorá-la em escala industrial, porém, criava um problema evidente.

As jazidas estavam em uma das regiões mais áridas do planeta.

Para retirar e processar o salitre, não bastava construir instalações industriais.

Era preciso levar trabalhadores até o deserto.

Era preciso alojá-los.

Alimentá-los.

Criar serviços.

Transportar equipamentos.

Levar a produção até os portos.

Pouco a pouco, surgiram pela região as chamadas oficinas salitreiras.

A palavra “oficina” pode enganar quem chega ao tema em português. Não estamos falando simplesmente de uma fábrica ou galpão.

Muitas funcionavam como verdadeiros assentamentos industriais.

Segundo a UNESCO, mais de 200 oficinas salitreiras chegaram a existir na região, articuladas por uma rede ferroviária construída para atender aquele sistema produtivo. Trabalhadores vindos do Chile, Peru e Bolívia, além de pessoas de outras origens, passaram a viver na Pampa em torno da indústria.

Hoje, Humberstone e Santa Laura estão entre os vestígios mais completos desse mundo.

E é caminhando entre eles que começamos a perceber sua escala.

Humberstone parece uma cidade porque foi uma cidade

Entrar em Humberstone é encontrar primeiro a dimensão humana da história.

O antigo assentamento se organiza em torno de uma praça.

Há ruas.

Casas.

Escola.

Teatro.

Antiga pulpería, onde eram comercializados produtos para os moradores.

Espaços destinados à convivência.

Instalações esportivas.

A documentação patrimonial chilena ainda identifica no conjunto elementos como a escola, o teatro, a pulpería e a piscina, todos pertencentes à vida comunitária daquele assentamento no deserto.

Essa talvez seja a parte mais desconcertante da visita.

Porque ruínas industriais são relativamente fáceis de compreender.

Encontramos máquinas e pensamos em trabalho.

Encontramos galpões e pensamos em produção.

Mas uma praça produz outra pergunta.

Como era viver aqui?

A partir desse momento, os edifícios deixam de parecer uma coleção de estruturas antigas.

Começam a revelar uma sociedade.

A casa indica onde alguém dormia.

A escola indica onde crianças aprendiam.

O teatro mostra que a vida não terminava quando o turno de trabalho acabava.

A pulpería revela como o abastecimento fazia parte do próprio sistema.

E a piscina, em pleno deserto, parece quase uma provocação à paisagem.

Cada construção acrescenta uma pequena peça.

Quando juntamos todas, Humberstone deixa de parecer uma fábrica abandonada.

Começa novamente a parecer uma cidade.

Uma cidade que não existiria sozinha

Mas Humberstone também pode nos enganar.

Se ficarmos apenas entre suas ruas, talvez esqueçamos a razão fundamental pela qual tudo aquilo surgiu.

Por isso Santa Laura é tão importante.

Os dois sítios são complementares.

A UNESCO considera Humberstone especialmente representativa das áreas residenciais e de serviços, enquanto Santa Laura conserva de maneira mais expressiva as instalações industriais relacionadas ao processamento do salitre.

É como atravessar de uma metade da história para a outra.

Em Santa Laura, a escala muda.

As estruturas ficam maiores.

A presença das máquinas se torna mais evidente.

Sobrevive ali, entre outros elementos, uma grande instalação utilizada no processo de lixiviação do salitre, além de equipamentos industriais e estruturas ligadas à produção.

O que em Humberstone aparecia como consequência começa a revelar sua causa.

A cidade existia porque a indústria existia.

A indústria existia porque havia salitre.

E tudo isso só conseguia funcionar porque uma enorme rede de circulação conectava aquele pedaço remoto do deserto ao restante do mundo.

Os trilhos que costuravam o deserto

As oficinas salitreiras não funcionavam como pontos isolados espalhados pela Pampa.

Era necessário transportar trabalhadores, materiais, equipamentos e, sobretudo, levar a produção em direção aos portos do Pacífico.

A ferrovia tornou possível essa articulação.

A UNESCO registra que as mais de 200 oficinas da região estavam interligadas por um sistema ferroviário construído especialmente para atender à indústria salitreira. Restos da linha que conectava Humberstone e Santa Laura permanecem entre os atributos do patrimônio.

A documentação oficial chilena vai além: identifica a rede ferroviária que conectava os diferentes sítios salitreiros como parte da própria paisagem cultural da Pampa.

Isso muda nossa percepção do vazio ao redor.

Hoje enxergamos deserto entre uma estrutura e outra.

Naquele período, precisamos imaginar circulação.

Trens.

Carga.

Trabalhadores.

Mercadorias.

Linhas ligando oficinas a outras oficinas e, finalmente, aos portos.

O caminho fazia parte da máquina.

Sem ele, aquilo que era retirado do deserto permaneceria no deserto.

Quando uma matéria-prima cria um mundo

A indústria do salitre produziu enorme riqueza para o Chile.

Também criou uma sociedade profundamente marcada pelas relações de trabalho daquele sistema.

Milhares de pessoas passaram a viver na Pampa, formando uma cultura própria — a cultura pampina — com formas particulares de convivência, linguagem, organização e identidade.

Essa história não deve ser romantizada.

As oficinas eram cidades empresariais.

A vida dos trabalhadores estava profundamente vinculada às companhias que controlavam produção, moradia, abastecimento e parte importante da organização cotidiana.

Ao mesmo tempo, foi nesse ambiente que surgiram movimentos de organização dos trabalhadores que tiveram impacto importante na história social chilena. A UNESCO considera justamente a cultura pampina e as lutas pioneiras por justiça social parte fundamental do valor histórico de Humberstone e Santa Laura.

Por isso, caminhar por Humberstone exige mais do que imaginar uma cidade movimentada.

Também exige perguntar como aquela cidade funcionava.

Quem possuía as casas?

Quem controlava o comércio?

Quem organizava o trabalho?

Quem se beneficiava da riqueza produzida?

E como as pessoas que viviam naquele sistema construíram, apesar dele e dentro dele, suas próprias relações comunitárias?

Os edifícios continuam ali.

Mas a história que contam não é simples.

O mundo mudou — e o deserto ficou

Nenhuma cidade industrial existe independentemente da atividade que a sustenta.

Quando essa atividade perde importância, todo o sistema ao redor começa a mudar.

Foi o que aconteceu com as oficinas salitreiras.

Mudanças tecnológicas e econômicas atingiram profundamente a indústria do nitrato natural ao longo do século XX.

Oficinas fecharam.

Trabalhadores partiram.

Ferrovias perderam função.

Assentamentos inteiros começaram a esvaziar.

A indústria que havia levado cidades ao deserto deixou para trás edifícios, máquinas, trilhos e enormes marcas na paisagem.

Humberstone e Santa Laura permaneceram entre os exemplares mais representativos desse processo.

Em 2005, as duas foram inscritas pela UNESCO na Lista do Patrimônio Mundial. Naquele mesmo momento, devido à fragilidade das estruturas e aos problemas de conservação, o conjunto também entrou para a Lista do Patrimônio Mundial em Perigo.

Depois de anos de intervenções e medidas de proteção, foi retirado dessa lista de risco em 2019.

Isso significa que aquilo que percorremos hoje não é simplesmente uma cidade que o deserto decidiu conservar sozinho.

Existe trabalho contínuo para impedir que ela desapareça.

O abandono também precisa ser interpretado

Existe uma palavra tentadora diante de Humberstone:

fantasma.

Cidade fantasma.

A expressão é poderosa.

Também é insuficiente.

Porque Humberstone não está vazia de significado.

Pessoas continuam visitando o lugar.

Antigos trabalhadores e seus descendentes mantêm vínculos com a cultura pampina e retornam em encontros e comemorações. A UNESCO registra, inclusive, a permanência dessas relações simbólicas com o sítio.

O lugar deixou de funcionar como antes.

Isso é diferente de deixar de existir.

Talvez seja mais interessante pensar em Humberstone como uma cidade cuja função desapareceu, mas cuja forma permaneceu suficientemente inteira para continuarmos lendo-a.

Uma praça ainda parece uma praça.

Uma escola ainda pode ser reconhecida como escola.

Um teatro continua revelando que alguém esperava uma plateia.

E uma rua continua conduzindo nossos passos entre edifícios construídos para pessoas que não moram mais ali.

O vazio não apagou a cidade.

Tornou sua estrutura mais visível.

Como conhecer Humberstone e Santa Laura hoje

Os dois sítios ficam na região de Tarapacá, no norte do Chile, a cerca de 45 quilômetros de Iquique, em plena Pampa. Humberstone e Santa Laura estão separadas por aproximadamente um quilômetro.

Para compreender o conjunto, vale não tratar uma como substituta da outra.

Humberstone oferece a leitura mais clara da vida urbana e comunitária.

Santa Laura ajuda a compreender a dimensão industrial que sustentava aquele mundo.

Visitadas em conjunto, uma explica a outra.

Também é importante lembrar onde estamos.

O ambiente é desértico, com forte exposição solar e condições que exigem planejamento adequado para caminhar entre estruturas e áreas abertas.

Mas existe outra preparação que talvez seja ainda mais importante para esta visita:

tempo.

Humberstone não é um lugar que se revela apenas quando fotografamos sua praça.

É preciso olhar para os edifícios e perguntar para que serviam.

Percorrer as ruas.

Observar a relação com Santa Laura.

Procurar os vestígios ferroviários.

E, de vez em quando, olhar para o deserto ao redor.

Porque é justamente o contraste entre aquilo que foi construído e aquilo que existia antes da construção que revela a dimensão do que aconteceu ali.

Quando caminhar é reconstruir

Em Humberstone e Santa Laura, não encontramos uma cidade funcionando.

Encontramos pistas suficientes para reconstruí-la mentalmente.

Uma casa.

Uma escola.

Um teatro.

Uma loja.

Uma máquina.

Uma ferrovia.

Uma estrutura industrial.

Uma rua terminando diante do deserto.

Separadamente, são vestígios.

Juntos, formam um sistema.

E talvez seja isso que torne a experiência tão diferente de simplesmente visitar uma ruína.

Não precisamos imaginar do zero.

O lugar nos oferece evidências.

Podemos caminhar daquilo que sustentava a vida cotidiana para aquilo que sustentava a indústria.

Podemos perceber que a indústria precisava da ferrovia.

Que a ferrovia precisava conectar o deserto aos portos.

Que os trabalhadores precisavam de uma cidade.

E que a cidade inteira precisava de uma matéria-prima escondida sob aquela paisagem aparentemente vazia.

Pouco a pouco, o mundo reaparece.

Não porque tenha voltado a funcionar.

Mas porque suas partes ainda conseguem explicar umas às outras.

Talvez o deserto seja justamente aquilo que torna essa sensação tão poderosa.

Ao redor, quase nada parece justificar uma cidade.

Diante de nós, porém, permanecem ruas, edifícios e máquinas provando que um dia existiu ali um mundo inteiro.

Então entendemos por que Humberstone e Santa Laura não são apenas lugares abandonados.

São lugares onde ainda podemos caminhar pelas perguntas que fizeram uma cidade existir.

E quando saímos novamente para a imensidão da Pampa, talvez levemos conosco a mais estranha delas:

como um mundo inteiro conseguiu nascer ali — e permanecer visível depois que sua razão de existir desapareceu?

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