Curitiba começa a ficar para trás.
A cidade diminui.
Os edifícios desaparecem.
E, pouco a pouco, acontece uma inversão.
A paisagem que parecia estar ao redor da ferrovia começa a parecer maior do que ela.
Montanhas.
Vegetação.
Vales.
Água.
Pedra.
A Mata Atlântica toma conta da janela.
A viagem ferroviária entre Curitiba e Morretes leva aproximadamente quatro horas e percorre um trecho da histórica ferrovia que atravessa a Serra do Mar paranaense. No caminho, o trem passa por 41 pontes e 13 túneis, entre montanhas, rios, cascatas, penhascos e desfiladeiros. Serra Verde Express — Curitiba–Morretes
É possível chegar a Morretes por estrada.
É possível voltar por estrada.
É possível atravessar a serra de outras maneiras.
Mas esse talvez seja justamente o aspecto mais interessante da viagem:
o território permanece o mesmo — e ainda assim parece mudar quando mudamos a maneira de atravessá-lo.
A cidade não desaparece de uma vez
O começo da viagem não entrega imediatamente a imagem que tornou o percurso famoso.
E isso é importante.
Primeiro é preciso sair de Curitiba.
A paisagem urbana começa a se desfazer, o trem avança e a relação com o relevo muda progressivamente.
Não há uma cortina abrindo para anunciar:
“Agora começou a Serra do Mar.”
É uma transição.
E, quando percebemos, a janela já está organizada por outra escala.
A ferrovia começa a parecer pequena diante daquilo que precisa atravessar.
Quando não precisamos olhar para a estrada
Viajar de carro por uma serra exige atenção.
Curvas.
Velocidade.
Outros veículos.
Sinalização.
A estrada precisa ser observada porque estamos participando ativamente do deslocamento.
Dentro de um trem, essa responsabilidade desaparece.
A janela deixa de ser instrumento de navegação.
Vira apenas janela.
Podemos olhar para uma encosta sem precisar saber onde será a próxima curva.
Acompanhar um rio.
Tentar enxergar o fundo de um vale.
Esperar a saída de um túnel.
Voltar os olhos para alguma coisa que apareceu do outro lado do vagão.
Isso parece detalhe.
Mas muda profundamente a relação com a paisagem.
Não dirigir também é uma maneira de enxergar.
Uma ferrovia construída onde o relevo parecia dizer não
A estrada de ferro entre Paranaguá e Curitiba foi construída no século XIX e aberta ao tráfego em 1885. O trem turístico atual utiliza parte dessa infraestrutura histórica.
E não precisamos conhecer todos os detalhes de sua construção para perceber o problema diante da janela.
Existe uma serra ali.
Uma grande diferença de altitude.
Encostas.
Vales.
Paredões.
Cursos d’água.
E o trem precisa encontrar uma maneira de passar.
Por isso aparecem túneis.
Pontes.
Curvas.
Cortes na montanha.
Estruturas que permitem aos trilhos avançar por um relevo que definitivamente não oferece uma linha simples entre origem e destino.
A engenharia não é apenas parte da história da ferrovia.
Ela continua determinando como a viagem é vista hoje.
Às vezes, enxergamos o próprio trem viajando
Há um detalhe particularmente interessante em ferrovias de montanha.
As curvas podem revelar parte da própria composição.
Em determinados pontos, olhar pela janela significa também ver vagões adiante ou atrás acompanhando o desenho dos trilhos.
Isso altera nossa percepção da escala.
De dentro do trem, ele parece grande.
Visto contornando uma montanha coberta pela Mata Atlântica, parece muito menor.
E talvez seja justamente essa comparação que mostre melhor o tamanho do território atravessado.
A janela não para de enquadrar
Há viagens em que esperamos chegar a determinado mirante.
Aqui, o enquadramento está sempre mudando.
Um túnel interrompe completamente a paisagem.
Segundos depois, a luz retorna e outra perspectiva aparece.
Uma ponte abre a visão.
Uma curva fecha.
A vegetação pode se aproximar tanto que ocupa quase toda a janela.
Depois se afasta novamente.
Cascatas surgem entre o verde.
Vales aparecem por alguns instantes.
O interesse não está apenas em uma grande vista.
Está nessa sucessão.
A Serra do Mar não é apresentada de uma vez.
Ela aparece aos pedaços.
O trem atravessa uma paisagem que também é patrimônio natural
A Serra do Mar paranaense integra um dos conjuntos mais importantes de remanescentes preservados de Mata Atlântica no Brasil.
E existe diferença entre saber que uma floresta está ali e atravessá-la durante horas.
Vista de longe, ela pode parecer uma grande superfície verde.
Da ferrovia, ganha profundidade.
Existem diferentes alturas.
Clareiras.
Água.
Sombras.
Paredões.
Árvores muito próximas e montanhas cobertas por vegetação muito mais distantes.
O trem não precisa parar para que a floresta se transforme em experiência.
Durante algumas horas, atravessá-la já é a visita.
Marumbi muda novamente a escala
A região do Marumbi é uma das referências mais marcantes da Serra do Mar paranaense.
O conjunto de montanhas se ergue em meio à Mata Atlântica e está associado também à história do montanhismo no Paraná.
Para quem está no trem, porém, não é necessário transformar a passagem numa aula de geografia.
O importante é perceber o que acontece com a janela.
A montanha deixa de ser fundo.
Passa a dominar a paisagem.
E a ferrovia, novamente, parece precisar negociar cada metro com o relevo.
Quarenta e uma pontes e treze túneis
Números normalmente são uma maneira muito pobre de descrever uma viagem.
Mas estes ajudam a entender sua dinâmica.
O percurso turístico passa por 41 pontes e 13 túneis.
Isso significa que a experiência é marcada repetidamente por quatro movimentos:
entrar,
sair,
cruzar,
contornar.
Um túnel transforma a janela em escuridão.
Uma ponte pode fazer exatamente o contrário e abrir o espaço diante dos olhos.
A própria infraestrutura cria ritmo.
E talvez seja por isso que essa viagem não dependa apenas da existência de uma paisagem bonita.
O modo como o trem atravessa a paisagem faz parte do espetáculo.
Há um ponto em que a engenharia parece desafiar a escala
Pontes e viadutos fazem parte da identidade visual da ferrovia.
Vistos de dentro do vagão, podem produzir uma sensação curiosa: sabemos que existe uma estrutura sustentando o trem, mas a janela frequentemente oferece primeiro a visão do vazio, da encosta ou da vegetação abaixo.
É um daqueles momentos em que compreender racionalmente que estamos sobre trilhos não impede o corpo de perceber a altura.
A viagem não precisa de parque de diversões.
A serra já cuidou da engenharia dramática.
Aos poucos, a descida também muda a vegetação
O percurso não atravessa uma paisagem imóvel.
Altitude, relevo, umidade e proximidade do litoral interferem no ambiente observado.
E mesmo que o passageiro não saiba identificar espécies ou formações vegetais, existe uma percepção mais simples disponível:
o lado de fora muda.
A viagem que começou numa capital a mais de 900 metros de altitude vai se aproximando de uma pequena cidade quase ao nível do mar.
A descida não é apenas um dado geográfico.
Está acontecendo diante da janela.
Morretes aparece no fim da serra
Depois de horas olhando para montanhas e vegetação, a chegada a Morretes muda novamente o ritmo.
Agora podemos caminhar.
A cidade histórica se desenvolveu às margens do rio Nhundiaquara e tornou-se conhecida também por uma experiência gastronômica que já faz parte da visita: o barreado.
E existe algo particularmente agradável nessa sequência.
Durante horas, a viagem foi contemplação.
Depois, o corpo volta a participar.
Descer do trem.
Andar pelas ruas.
Sentar para comer.
Olhar o rio sem que ele desapareça pela janela alguns segundos depois.
O destino não precisa competir com a viagem.
Ele muda a maneira de experimentar o dia.
O barreado também faz parte do caminho
Seria estranho falar de uma experiência em Morretes sem mencionar o barreado.
O prato tradicional paranaense, preparado lentamente com carne e temperos, tornou-se uma das referências gastronômicas da cidade.
E talvez exista uma coincidência bonita nisso.
Depois de uma viagem que pede tempo para atravessar a serra, encontramos um prato cuja própria preparação também depende de tempo.
Não precisamos transformar isso em metáfora obrigatória.
Basta almoçar.
Porque viajar não é apenas compreender paisagens.
Às vezes é sentar à mesa depois de quatro horas olhando pela janela.
E se a volta acontecer por outro caminho?
Existe uma possibilidade particularmente interessante nessa experiência: fazer a ida de trem e retornar por via rodoviária.
A própria operação oferece roteiros que combinam o trecho ferroviário até Morretes com retorno rodoviário. Opções de passeio da Serra Verde Express
Isso cria algo que poucas viagens permitem com tanta clareza:
atravessar uma mesma serra de duas maneiras diferentes no mesmo dia.
Na ida, trilhos.
Na volta, asfalto.
No trem, a atenção pode permanecer livre para a paisagem.
Na estrada, surgem outras perspectivas, outras curvas e outra relação com o relevo.
O território não mudou.
Nós mudamos de caminho.
E, por isso, podemos perceber coisas diferentes.
Quatro horas são tempo suficiente para a paisagem acontecer
Há experiências extraordinárias porque estão do outro lado do continente.
Esta possui outra qualidade.
Ela está no Brasil.
Parte de uma capital.
Pode integrar um único dia de viagem.
E ainda assim oferece algo que muitas travessias maiores não conseguem proporcionar:
uma mudança clara de ritmo, altitude, ambiente e perspectiva.
Em poucas horas, cidade, serra, floresta, engenharia ferroviária, pequena cidade histórica e gastronomia podem fazer parte da mesma experiência.
O extraordinário nem sempre precisa estar longe.
Às vezes começa numa estação e termina antes do jantar.
A mesma serra nunca é exatamente a mesma
Quem atravessa a Serra do Mar de carro vê uma paisagem.
Quem a atravessa de trem vê outra.
Não porque existam duas serras.
Mas porque cada caminho organiza nossa atenção de maneira diferente.
O trem permite olhar sem dirigir.
Os trilhos aproximam a viagem de encostas, pontes e túneis construídos para responder às exigências daquele relevo.
A velocidade oferece tempo.
A janela recorta.
A floresta aparece, desaparece e retorna.
E Morretes chega somente depois que a serra teve algumas horas para se apresentar.
Talvez seja essa a grande experiência da viagem.
Não apenas descobrir uma paisagem bonita.
Mas perceber que a maneira como atravessamos um território determina também aquilo que conseguimos enxergar nele.
Podemos chegar ao mesmo lugar por outro caminho.
Podemos até voltar no mesmo dia.
Mas, depois de algumas horas com a Mata Atlântica ocupando a janela, dificilmente poderemos dizer que apenas fomos de Curitiba a Morretes.
A viagem aconteceu muito antes da chegada.
Como as datas de operação variam ao longo do ano, vale consultar o calendário antes de planejar a viagem.




