Onde o Horizonte Parece Não Terminar: Um Dia de Trem Pelo Altiplano Peruano

Trem atravessando o altiplano peruano entre montanhas e grandes horizontes

Cusco fica para trás pela manhã.

Ainda há ruas, construções, montanhas próximas, sinais de uma paisagem que parece organizada em torno da presença humana.

Depois, alguma coisa começa a mudar.

As casas ficam mais espaçadas.

As montanhas se afastam.

O céu parece ocupar uma parte maior da janela.

E chega um momento em que procurar alguma coisa específica para olhar deixa de fazer sentido.

Há espaço demais.

O trem continua avançando, mas a paisagem parece ter parado.

Essa talvez seja uma das experiências mais curiosas de atravessar de trem o caminho entre Cusco e Puno, no PeruRail Titicaca: descobrir que uma viagem não precisa mudar de cenário a cada instante para continuar acontecendo.

Às vezes, é justamente a permanência que transforma o olhar.

A viagem dura aproximadamente dez horas e meia. Tempo suficiente para tomar café da manhã em Cusco e chegar a Puno quando o dia já começa a se despedir.

Entre uma coisa e outra, existe o altiplano.

E ele exige outra medida de distância.

Dez horas e meia não parecem pequenas antes do embarque

Quando sabemos que passaremos praticamente um dia inteiro dentro de um trem, uma pergunta aparece antes mesmo da viagem:

O que faremos durante todo esse tempo?

Talvez porque tenhamos aprendido a pensar deslocamentos como intervalos.

Pegamos um avião para chegar.

Entramos no carro para chegar.

Esperamos um ônibus porque precisamos chegar.

Dez horas e meia, dentro dessa lógica, parecem um problema que precisa ser administrado.

No PeruRail Titicaca, porém, o tempo faz parte do produto oferecido.

Há vagão-restaurante, bar, áreas de convivência, apresentações culturais e um vagão de observação com uma área aberta para contemplar a paisagem.

Não é necessário permanecer dez horas sentado no mesmo lugar olhando pela mesma janela.

Podemos levantar.

Caminhar entre os vagões.

Almoçar.

Tomar alguma coisa.

Ir até a área de observação.

Voltar ao assento.

Conversar.

Ficar em silêncio.

E olhar novamente.

O que parecia tempo a preencher começa a ganhar uma estrutura própria.

Cusco não desaparece de uma vez

A saída acontece pela estação de Wanchaq, em Cusco.

O início da viagem ainda carrega uma sensação de proximidade.

Há cidades e povoados.

Campos cultivados.

Estradas.

Rios.

Montanhas que parecem delimitar o espaço.

A ferrovia acompanha por algum tempo o vale do rio Vilcanota, atravessando uma região onde a presença humana continua visível.

Isso é importante porque o altiplano não surge como uma imagem pronta.

Chegamos a ele.

A paisagem vai se abrindo aos poucos, e talvez seja justamente essa transformação gradual que uma viagem por terra permite perceber.

Não existe uma porta separando um território do outro.

Existe transição.

Até que o céu começa a crescer

A altitude aumenta.

Os vales se tornam mais amplos.

As construções diminuem.

A vegetação muda.

E o horizonte começa a se afastar.

O altiplano peruano ocupa uma extensa região elevada dos Andes, marcada por planícies de altitude cercadas por cadeias montanhosas.

Visto da janela de um trem, porém, nenhuma definição geográfica parece suficiente.

Porque aquilo que mais chama atenção não é apenas o que existe na paisagem.

É a distância entre as coisas.

Uma casa pode aparecer sozinha.

Um pequeno rebanho ocupa uma área que parece imensa.

Uma estrada atravessa o campo e desaparece.

Montanhas permanecem no horizonte durante tanto tempo que fica difícil perceber se estamos nos aproximando delas ou apenas viajando diante delas.

Depois das florestas fechadas da Serra do Mar, onde a vegetação quase encostava na janela, aqui acontece o contrário.

O olhar pode ir longe.

Muito longe.

O vagão de observação muda nossa relação com a janela

Em algum momento, vale deixar o assento.

O PeruRail Titicaca possui um vagão de observação com grandes janelas e uma área aberta na parte posterior.

É uma diferença aparentemente pequena.

Até sairmos.

Sem o vidro entre o corpo e a paisagem, a viagem muda.

O vento entra.

A temperatura é sentida de outra maneira.

O ruído dos trilhos fica mais presente.

E aquilo que antes parecia uma imagem enquadrada passa a ocupar também os lados.

É possível olhar para trás e ver os trilhos diminuindo.

Ver os vagões acompanhando as curvas.

Observar uma paisagem que não termina na borda de uma janela.

Por alguns minutos, deixamos de assistir ao altiplano.

Estamos atravessando-o.

O almoço acontece enquanto o Peru continua passando

Há algo curioso em sentar à mesa dentro de um veículo em movimento.

Pratos chegam.

Copos permanecem sobre a mesa.

Conversas começam.

E do outro lado da janela existe um país inteiro passando.

O serviço inclui um almoço de três tempos inspirado na gastronomia peruana, além de chá da tarde.

A comida ajuda a dividir uma viagem longa em capítulos.

Manhã.

Almoço.

Tarde.

Chegada.

Não precisamos consultar constantemente o relógio para saber quanto ainda falta.

O próprio dia organiza o percurso.

E talvez por isso dez horas e meia dentro daquele trem sejam diferentes de dez horas e meia numa sala de espera.

O tempo não está suspenso.

Ele tem paisagem.

La Raya interrompe o movimento

Em algum momento da viagem, o trem para.

Não em uma grande cidade.

Não para que a jornada termine.

Mas porque ali existe um ponto que merece ser percebido.

La Raya está a aproximadamente 4.335 metros acima do nível do mar e marca o ponto mais alto do percurso. A parada permite aos passageiros descerem por alguns minutos antes de continuar viagem.

Depois de horas vendo a altitude pela janela, podemos finalmente pisar nela.

O ar é diferente.

As montanhas parecem próximas e distantes ao mesmo tempo.

Há poucas referências de escala.

E talvez seja justamente ali que um número — 4.335 metros — deixa de ser apenas informação.

Estamos nele.

Depois de La Raya, alguma coisa muda novamente

A viagem continua em direção a Puno.

E aqui está uma das sutilezas de passar tantas horas observando uma paisagem aparentemente semelhante:

começamos a perceber diferenças que talvez ignorássemos numa passagem rápida.

A tonalidade do terreno muda.

A luz muda.

Os povoados aparecem de outras maneiras.

Animais surgem ao longe.

Rios acompanham trechos do percurso.

A presença humana reaparece e desaparece.

O altiplano deixa de parecer uma paisagem única.

Ele começa a revelar variações.

Não porque alguém as apontou.

Mas porque tivemos tempo suficiente para vê-las.

Há momentos em que nada extraordinário acontece

Isso também faz parte da viagem.

Nenhuma montanha monumental surge.

Não há uma ponte dramática.

Nenhum guia anuncia que todos precisam olhar imediatamente para o lado esquerdo.

Existe apenas uma planície.

Depois outra.

Céu.

Campos.

Uma casa distante.

Talvez algumas alpacas ou lhamas.

Mais céu.

E o trem seguindo.

É justamente aqui que a experiência pode dividir opiniões.

Quem precisa de estímulos constantes talvez ache determinados trechos repetitivos.

Quem espera uma sequência ininterrupta de cartões-postais pode descobrir que o altiplano trabalha em outro ritmo.

Mas quem aceita olhar por tempo suficiente talvez perceba algo diferente.

A aparente repetição começa a produzir atenção.

O trem também tenta preencher o dia

Há música e apresentações de danças tradicionais durante o percurso.

Existe demonstração de preparo de pisco sour.

Há refeições.

Bar.

Conversas.

Movimento entre os vagões.

Tudo isso torna a experiência confortável e ajuda a organizar tantas horas a bordo.

Mas existe uma escolha interessante para quem viaja ali.

Podemos aceitar todos os convites do trem.

Ou podemos, de vez em quando, recusá-los.

Porque talvez uma das melhores coisas para fazer no altiplano seja justamente não fazer nada.

Sentar perto da janela.

E deixar uma paisagem enorme ocupar o tempo.

No fim da tarde, a luz começa a contar quanto viajamos

Depois de tantas horas, o corpo já conhece o trem.

Sabemos onde fica o vagão de observação.

Já levantamos algumas vezes.

Já almoçamos.

Já vimos apresentações.

Talvez tenhamos escolhido um lugar preferido.

E então a luz começa a baixar.

A mesma paisagem que durante a manhã parecia clara e aberta ganha sombras maiores.

As montanhas mudam de cor.

O céu começa a perder intensidade.

É uma maneira silenciosa de perceber a duração da viagem.

Não precisamos olhar para o relógio.

Partimos com um dia.

Estamos chegando com outro.

Puno aparece depois de um dia inteiro de caminho

A aproximação de Puno devolve referências mais familiares ao olhar.

Construções.

Ruas.

Movimento.

Sinais de cidade.

Depois de tantas horas de horizonte aberto, a concentração de coisas parece quase estranha.

E há ainda uma expectativa maior adiante.

Puno está às margens do Lago Titicaca, um dos grandes destinos dessa região dos Andes.

Seria fácil imaginar que o trem foi apenas a maneira de chegar até ele.

Mas dez horas e meia tornam essa interpretação difícil.

O lago ainda pode ser o destino.

Só que o dia já aconteceu.

Talvez seja essa a verdadeira medida da viagem

Cusco e Puno podem ser colocadas em um mapa.

Podemos traçar uma linha entre as duas.

Podemos medir quilômetros.

Consultar horários.

Calcular duração.

Mas nenhuma dessas informações mostra o tamanho do céu entre elas.

Não mostra quanto tempo uma montanha pode permanecer no horizonte.

Não mostra o que acontece quando o almoço chega enquanto o território continua passando pela janela.

Nem explica por que, depois de algumas horas, uma pequena mudança na paisagem começa a parecer importante.

Talvez porque distância não seja apenas aquilo que separa dois lugares.

Às vezes, distância é aquilo que precisamos atravessar para perceber que um lugar terminou e outro começou.

No altiplano, essa transição acontece devagar.

E é justamente por isso que conseguimos vê-la.

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